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Blog sobre Suprimentos

Novo Governo, novos impactos: os 1 desafios de Suprimentos para os próximos anos

Autor:
Alexandre do Valle é gestor de suprimentos na 2BSUPPLY - Supply Chain
Alexandre do Valle Faria

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Novo Governo, novos impactos: os 1º desafios de Suprimentos para os próximos anos

Juros ainda elevados, Reforma Tributária, incentivos governamentais, expansão do agronegócio e uma possível nova fronteira petrolífera na Margem Equatorial formam parte do cenário que o próximo mandato presidencial encontrará. Para as empresas, essas questões deixam de pertencer apenas aos departamentos financeiro, fiscal ou jurídico. Elas começam a chegar diretamente às mesas de Compras e às decisões sobre fornecedores, estoques, contratos, investimentos e logística.

Por Alexandre do Valle

Durante muito tempo, acompanhar a política econômica brasileira parecia ser uma tarefa reservada aos departamentos financeiros, aos economistas ou aos executivos responsáveis pelo planejamento estratégico das empresas. Para quem trabalhava em Compras e Supply Chain, questões como taxa de juros, política fiscal, incentivos governamentais ou decisões tomadas em Brasília pareciam relativamente distantes da operação cotidiana.

Essa realidade mudou.

O Brasil se aproxima de um novo ciclo presidencial em um momento no qual decisões políticas e econômicas estão cada vez mais conectadas ao funcionamento das cadeias produtivas. A política monetária interfere diretamente no custo do capital dos fornecedores. A política fiscal influencia expectativas, investimentos e câmbio. A Reforma Tributária poderá alterar a maneira como empresas estruturam preços, contratos e redes logísticas. Ao mesmo tempo, decisões sobre infraestrutura, energia, agronegócio e exploração de petróleo podem criar novos mercados e deslocar cadeias inteiras de fornecedores.

Para os profissionais de Suprimentos, portanto, acompanhar Brasília deixou de ser apenas uma questão de informação econômica. Passou a fazer parte da gestão de riscos.

Uma decisão tomada hoje pelo Banco Central, pelo Congresso Nacional ou pelo governo federal pode aparecer meses depois dentro de uma proposta comercial, na renegociação de um contrato, no preço de um frete ou na dificuldade financeira de um fornecedor estratégico.

A grande mudança talvez esteja justamente aí: o comprador moderno não compra apenas produtos e serviços. Em alguma medida, ele também compra o cenário econômico no qual aquele contrato será executado.

Juros altos transformam negociações comerciais em negociações financeiras

A taxa básica de juros brasileira continua sendo uma das principais variáveis desse cenário. Em setembro de 2026, o Comitê de Política Monetária reduziu a Selic para 13,75% ao ano, dando continuidade ao processo de redução, mas mantendo o custo do dinheiro em um patamar ainda elevado. O próprio Banco Central indicou que o ambiente exige cautela diante das incertezas e das expectativas de inflação ainda pressionadas. Banco Central do Brasil

Para uma empresa, uma taxa de juros elevada não aparece apenas no financiamento bancário. Ela percorre silenciosamente toda a cadeia de suprimentos.

Um fabricante que precisa comprar matéria-prima meses antes de receber pelo produto final precisa financiar capital de giro. Um distribuidor que mantém grandes volumes de estoque precisa carregar financeiramente esse inventário. Um fornecedor de equipamentos importados precisa financiar o período entre a encomenda, fabricação, transporte, desembaraço aduaneiro e pagamento do cliente. Quanto maior o custo do dinheiro, maior a tendência de que parte dessa despesa seja transferida para os preços.

É por isso que, em determinados mercados, negociar apenas o valor unitário começa a fazer cada vez menos sentido.

Prazo de pagamento, antecipação de recebíveis, estoques consignados, contratos de longo prazo, previsibilidade de demanda e mecanismos de financiamento podem ter impacto econômico semelhante — ou até superior — ao desconto negociado sobre o produto.

Nesse ambiente, empresas de grande porte também encontram uma oportunidade. Organizações com melhor capacidade financeira podem estruturar programas de Supply Chain Finance, antecipação de recebíveis ou outras alternativas capazes de reduzir o custo de capital de fornecedores estratégicos. Em vez de pressionar continuamente o fornecedor por preço, o comprador passa a atuar também sobre a estrutura financeira da cadeia.

Essa mudança é importante porque aproxima Suprimentos de uma função que historicamente esteve concentrada nas áreas financeiras. O comprador deixa de discutir apenas preço e passa a discutir capital.

A política fiscal também entra na cotação do fornecedor

Ao lado dos juros existe outra variável que deverá ocupar parte importante do debate econômico nos próximos anos: a trajetória das contas públicas.

Programas de investimento, crédito subsidiado, financiamento público, incentivos fiscais e políticas industriais podem funcionar como importantes instrumentos de desenvolvimento econômico. Dependendo de sua estrutura, podem estimular inovação, acelerar investimentos e favorecer a criação de novas cadeias produtivas.

Por outro lado, quando o mercado percebe desequilíbrios fiscais persistentes, essa percepção pode afetar expectativas de inflação, juros futuros, câmbio e custo de financiamento.

Para Suprimentos, portanto, a discussão relevante não deveria ser simplesmente se incentivos governamentais são positivos ou negativos. A pergunta mais importante é como esses incentivos são estruturados, quais setores serão beneficiados e qual previsibilidade eles oferecem para investimentos de longo prazo.

Essa questão será particularmente importante porque uma política econômica pode modificar rapidamente a atratividade de determinados setores.

Incentivos à infraestrutura podem aumentar a demanda por aço, cimento, máquinas e serviços de engenharia. Linhas de financiamento voltadas à inovação podem acelerar investimentos em automação, inteligência artificial e equipamentos industriais. Programas direcionados à energia podem movimentar cadeias de equipamentos elétricos, geração distribuída ou petróleo e gás.

Para um executivo de Suprimentos, acompanhar essas políticas significa tentar identificar onde surgirão pressões de demanda antes que elas cheguem ao mercado.

Porque quando todos começam a comprar ao mesmo tempo, normalmente os preços já começaram a subir.

O agronegócio mostra como política econômica e Supply Chain estão conectados

Poucos setores brasileiros permitem observar essa relação com tanta clareza quanto o agronegócio.

O Plano Safra 2026/2027 prevê R$ 525,1 bilhões para a agricultura empresarial, incluindo recursos destinados a custeio, comercialização e investimentos. O programa contempla iniciativas relacionadas à armazenagem, irrigação, inovação tecnológica, aquisição de máquinas e equipamentos, geração de energia e sustentabilidade. Serviços e Informações do Brasil

Quando esses recursos chegam ao mercado, seus efeitos ultrapassam muito os limites das propriedades rurais.

Uma decisão de financiamento tomada em Brasília pode se transformar em compra de tratores no Mato Grosso, sistemas de irrigação em Goiás, silos no Paraná, sensores agrícolas no interior de São Paulo ou equipamentos de armazenagem em Minas Gerais.

Cada investimento realizado pelo produtor gera uma sequência de compras.

E é justamente nesse ponto que o agronegócio deve ser observado como uma enorme cadeia de suprimentos.

O produtor moderno não compra apenas sementes e fertilizantes. Ele compra máquinas, softwares, sistemas de monitoramento, energia, equipamentos de irrigação, defensivos, serviços financeiros, armazenagem, manutenção, seguros, transporte e tecnologia.

Ao mesmo tempo, existe um desafio estrutural que continuará acompanhando o crescimento do setor: logística.

O Brasil demonstrou extraordinária capacidade de aumentar sua produção agrícola ao longo das últimas décadas. Mas aumentar produção sem expandir armazenagem e infraestrutura cria gargalos em outros pontos da cadeia. Uma safra maior precisa chegar aos portos, e isso significa rodovias, ferrovias, hidrovias, terminais e capacidade de armazenamento.

Nesse sentido, infraestrutura também é política agrícola.

Não adianta produzir mais se o custo para transportar essa produção reduz parte relevante da competitividade conquistada dentro da fazenda.

Esse será um dos dilemas econômicos que o próximo governo continuará enfrentando: transformar produtividade agrícola em eficiência logística.

Para Supply Chain, esse movimento abre oportunidades evidentes. Onde existe expansão produtiva, existe necessidade de novos fornecedores, contratos, tecnologias e serviços.

A Margem Equatorial pode inaugurar uma nova fronteira econômica

No setor de petróleo e gás, outro movimento começa a ganhar importância estratégica.

A Margem Equatorial brasileira vem sendo apontada como uma das principais novas fronteiras exploratórias do país. Em outubro de 2026, a Petrobras anunciou uma nova descoberta de petróleo em águas ultraprofundas na costa do Amapá, no poço Morpho, localizado no bloco FZA-M-59. Segundo a companhia, a descoberta amplia o conhecimento sobre o potencial exploratório da região. Agência

É importante fazer aqui uma distinção fundamental.

Encontrar petróleo não significa necessariamente encontrar uma reserva comercialmente viável, assim como uma descoberta não significa que a produção começará imediatamente. Entre a perfuração de um poço exploratório e uma eventual produção existem anos de análises geológicas, estudos econômicos, desenvolvimento de projetos, licenciamento ambiental, investimentos e novas perfurações.

Mas, para quem observa a cadeia de suprimentos, o simples avanço exploratório já merece atenção.

Uma nova província petrolífera não movimenta apenas plataformas.

Ela pode criar demanda por embarcações de apoio, helicópteros, equipamentos subsea, válvulas, bombas, tubos, equipamentos de segurança, sistemas de monitoramento, serviços ambientais, engenharia, manutenção, alimentação offshore, logística portuária, tecnologia, inspeção e milhares de itens de MRO.

Um poço de petróleo, nesse sentido, representa muito mais do que um ativo energético. Ele pode se transformar no centro de uma extensa rede econômica.

Caso o potencial da Margem Equatorial avance para uma nova etapa de desenvolvimento, poderá surgir também uma discussão sobre a necessidade de formação de fornecedores mais próximos das operações no Norte e Nordeste.

Isso significa novos investimentos em bases logísticas, infraestrutura portuária, treinamento de mão de obra e desenvolvimento de fornecedores regionais.

É uma discussão que lembra outros ciclos vividos pelo setor brasileiro de petróleo e gás, nos quais novas fronteiras exploratórias acabaram criando ecossistemas industriais inteiros ao seu redor.

O potencial econômico da Margem Equatorial convive com uma discussão ambiental

Seria incompleto, entretanto, analisar essa nova fronteira exclusivamente pela perspectiva econômica.

A exploração de petróleo na Margem Equatorial envolve uma discussão ambiental relevante e que provavelmente continuará presente na agenda política brasileira.

De um lado está o argumento econômico relacionado à reposição de reservas, segurança energética, investimentos, geração de empregos, royalties e desenvolvimento regional. De outro, existem questionamentos relacionados à sensibilidade ambiental da região, à capacidade de resposta em situações de emergência e ao papel do Brasil na transição para uma economia de menor intensidade de carbono.

Essas duas dimensões deverão continuar convivendo.

Para Supply Chain, porém, existe outra interpretação possível dessa discussão. Acesse o curso de Automações e Inteligência Artificial da 2BSUPPLY

Quanto maiores forem as exigências ambientais e operacionais, maior poderá ser também a demanda por tecnologias capazes de reduzir riscos.

Monitoramento por satélite, drones, inteligência artificial, inspeções remotas, sensores ambientais, sistemas de detecção, equipamentos para contenção de vazamentos e tecnologias relacionadas à resposta a emergências podem se tornar cada vez mais importantes.

Isso demonstra algo que muitas vezes passa despercebido no debate econômico: regulação não representa apenas custo. Dependendo da forma como é estruturada, ela também pode criar novos mercados.

Empresas capazes de oferecer tecnologias que aumentem segurança, rastreabilidade e controle ambiental podem encontrar importantes oportunidades nessa nova etapa.

A Reforma Tributária começa a entrar definitivamente na operação das empresas

Enquanto juros, agricultura e petróleo alteram as condições de investimento, outra transformação ocorrerá dentro das próprias organizações: a Reforma Tributária do consumo.

A implementação do novo sistema baseado principalmente na CBS e no IBS representa uma mudança estrutural na tributação brasileira. O processo será gradual, mas seus impactos começarão a aparecer cada vez mais nos sistemas, contratos, cadastros e processos empresariais.

Para Supply Chain, talvez exista um risco inicial: tratar a Reforma Tributária como um projeto exclusivo do departamento fiscal.

Ela não é.

Compras estará diretamente envolvida porque tributação interfere no custo efetivo de aquisição.

Um fornecedor aparentemente mais barato poderá não representar necessariamente a alternativa economicamente mais vantajosa. O aproveitamento de créditos, o regime tributário, a natureza da operação e outros elementos podem alterar a comparação entre propostas.

Isso significa que a tradicional planilha de equalização comercial precisará evoluir.

Preço, frete e prazo continuarão importantes, mas a análise tributária ganhará relevância muito maior.

Na prática, Fiscal, Compras, Financeiro e Tecnologia terão que conversar mais.

E isso talvez seja uma das consequências mais interessantes da reforma: ela obrigará áreas que durante décadas trabalharam em estruturas relativamente separadas a compartilhar decisões.

Outro indicador da dimensão dessa mudança está no avanço do chamado Split Payment. A Receita Federal informou que a partir de 15 de outubro de 2026 começará uma etapa de testes de integração entre prestadores de serviços de pagamento e a Plataforma Pública do Split Payment. Nesta fase, os testes ocorrerão em ambiente controlado e não afetarão transações reais, mas demonstram o avanço da infraestrutura tecnológica necessária para o novo modelo tributário. Serviços e Informações do Brasil

Quando tributação começa a conversar diretamente com meios de pagamento, ERP e sistemas bancários, fica evidente que a reforma está muito distante de ser apenas uma troca de impostos.

Estamos falando de uma transformação operacional.

A Reforma Tributária também pode alterar o mapa logístico brasileiro

Existe ainda outro efeito potencial da reforma que merece ser observado pelos executivos de Supply Chain.

Durante décadas, decisões sobre localização de fábricas, centros de distribuição e operações logísticas brasileiras foram parcialmente influenciadas pela estrutura tributária e por benefícios concedidos pelos estados.

Com a transição para o novo sistema, essa lógica tende a perder gradualmente parte de sua importância.

Isso poderá provocar uma pergunta extremamente relevante dentro das empresas:

se o benefício tributário deixar de ser o principal motivo para manter determinada operação em determinado estado, essa localização continuará fazendo sentido logisticamente?

Essa pergunta pode abrir uma discussão profunda.

Alguns centros de distribuição poderão ser reavaliados. Rotas podem ser redesenhadas. Estratégias de estoque poderão mudar. A localização de fornecedores poderá ganhar peso diferente na decisão de sourcing.

Variáveis como proximidade do consumidor, custo de transporte, disponibilidade de infraestrutura, acesso à energia, mão de obra e proximidade dos fornecedores podem ocupar um espaço maior na decisão.

Se isso acontecer, a Reforma Tributária terá produzido algo muito maior do que uma mudança fiscal.

Ela poderá contribuir para uma reorganização física de partes da cadeia de suprimentos brasileira.

O próximo governo encontrará um profissional de Suprimentos diferente

Todos esses movimentos ajudam a explicar por que a função de Compras está passando por uma transformação tão significativa.

Durante muitos anos, o principal indicador de sucesso de um comprador foi o saving. Negociar melhor significava, em grande parte, conseguir reduzir preços.

Esse indicador continuará importante. Mas será insuficiente.

O profissional que atravessará o próximo ciclo econômico brasileiro precisará compreender cada vez mais como juros, câmbio, tributação, regulamentação, tecnologia, energia e geopolítica interferem nas decisões comerciais.

Uma negociação poderá começar discutindo preço e terminar discutindo financiamento.

Uma concorrência poderá apresentar três fornecedores com preços semelhantes, mas estruturas tributárias completamente diferentes.

Um projeto de CAPEX poderá parecer economicamente atraente hoje e tornar-se inviável diante de uma alteração relevante no custo de capital.

Da mesma forma, uma decisão política sobre uma nova área de exploração de petróleo poderá criar, alguns anos depois, centenas de oportunidades para fornecedores que sequer participavam daquele mercado.

Isso significa que Supply Chain está deixando gradualmente de ser apenas uma função operacional para assumir uma posição cada vez mais próxima da estratégia empresarial. Cursos Profissionalizantes na área de Suprimentos

Entre riscos e oportunidades, começa um novo ciclo

O próximo mandato presidencial encontrará, portanto, uma economia diante de forças que caminham simultaneamente em direções diferentes.

Existem riscos claros. Juros ainda elevados continuam pressionando investimentos e fornecedores. A política fiscal permanecerá no centro da atenção dos mercados. A Reforma Tributária exigirá adaptações profundas. As empresas continuarão expostas à volatilidade internacional, às commodities e ao câmbio.

Mas também existem oportunidades relevantes.

O agronegócio continuará demandando infraestrutura, tecnologia e modernização. A transição tributária poderá, no longo prazo, eliminar distorções que durante décadas influenciaram decisões empresariais. A Margem Equatorial poderá abrir uma nova fronteira para a indústria de petróleo e gás caso seu potencial seja confirmado e os projetos avancem dentro das exigências regulatórias e ambientais.

Entre esses dois lados estará a cadeia de suprimentos.

Talvez esse seja o ponto econômico mais importante dessa discussão.

Governos podem definir políticas, criar incentivos, estabelecer regras e anunciar investimentos. Empresas podem aprovar bilhões em projetos.

Mas existe uma etapa inevitável entre a intenção e a realização.

Alguém precisará contratar as obras.

Alguém precisará comprar os equipamentos.

Alguém precisará selecionar os fornecedores.

Alguém precisará movimentar os materiais.

Alguém precisará administrar os contratos.

E praticamente toda política econômica, em algum momento, acaba passando por uma cadeia de suprimentos.

Por isso, talvez a pergunta mais importante para os próximos anos não seja apenas o que o novo governo fará com a economia brasileira.

Para quem trabalha em nosso setor, existe uma segunda pergunta igualmente importante:

como a área de Suprimentos está se preparando para aquilo que a economia brasileira fará com ela?

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